A GÉNESE DAS SUBSTÂNCIAS MINERAIS E O ESSENCIALISMO EM CIÊNCIA

A GÉNESE DAS SUBSTÂNCIAS MINERAIS
E O ESSENCIALISMO EM CIÊNCIA
A.M. Amorim da Costa

 

Discursos  e Práticas Alquimicas

Fonte: http://www.triplov.com/alquimias/amorim.htm

……K. A missão alquímica

O principal objectivo dos alquimistas sempre foi a transmutação, a transformação de uma forma de matéria noutra. A transformação dos metais vis em metais nobres, como a transformação do homem mortal e efémero em deus imortal e eterno. Do ponto de vista físico-químico, qualquer transformação de um estado da matéria num outro implica variação do conteúdo energético do sistema sobre que ocorre essa transformação. Ao longo da transformação o sistema recebe ou perde energia.

Para operar a transmutação dos metais vis em prata ou ouro, os alquimistas procuravam a energia necessária num elixir, a Pedra filosófica. Hoje, diríamos que esta seria um pequeno mas potente embrião de energia criativa que ao juntar-se ao corpo a ser transmutado funcionaria como uma transfusão de sangue num doente anémico. No caso concreto dos metais, o serem vis, desprovidos do carácter nobre do ouro e da prata, dever-se-ia ao facto de estarem impregnados apenas por um pequeno quantum de alma, num estado verdadeiramente moribundo. Projectar sobre eles o elixir da transmutação seria vivificá-los, permitindo-lhes crescer e aperfeiçoar-se, podendo atingir um estágio em que se tornem imunes à deterioração. Este seria atingido quando se transformassem em ouro.

Numa palavra, o metal vil que sob a acção da Pedra filosofal se transformou em ouro adquiriu a energia criativa que o regenerou do estado anímico em que se encontrava. Energia criativa, gerador do ouro vivo, o elixir que torna possível uma tal transmutação é pois, verdadeira semente de metais.

A embriologia dos minerais

Toda a criação era, para o alquimista, valorizada em termos da Vida, com um destino antropocósmico. Como o Homem, toda a Natureza nasce, vive e morre. Toda ela é, também, sexuada e fecunda. Nela, por toda a parte, está presente o elemento masculino e o elemento feminino de cuja união resulta a continuação permanente da Vida. Nascem, crescem e morrem, em renovação contínua da Vida, o Homem, as plantas e os animais, como nascem, crescem e morrem, no seio da Terra-mãe, como o feto no útero materno, resultado duma união fecunda do masculino com o feminino, os minerais, as pedras e os metais. Interessados, em particular, na preparação do ouro e da prata, os alquimistas preocupavam-se, muito especialmente, com a sua possível intervenção no processo generativo e evolutivo destes últimos.

De facto, uma concepção embriológica dos minerais e sua descrição em termos ginecomorfológicos informa claramente a maioria dos tratados clássicos da alquimia que se conhecem. Do ponto de vista místico-religioso, uma tal concepção não é sequer um elemento estritamente característico e próprio da filosofia alquímica. Encontrámo-la, de um modo ou de outro, no elemento religioso das mais variadas civilizações, em áreas geográficas inteiramente diferentes, com tradições eruditas também muito diversas, como é o caso das civilizações Inca e Maya da América Central, as primitivas civilizações da América do Sul, dos Gregos e dos Semitas da Europa Setentrional, e as civilizações da África e da Oceania2.

Com diferenças de pormenor mais ou menos acentuadas, é-lhes comum a crença fundamental de que os minerais se geram no seio da Terra-mãe e aí crescem e amadurecem. O diferente grau de amadurecimento em que se encontram, traduz-se em diferente grau de perfeição que, por sua vez, corresponde a diferentes minérios, na utilização do dia a dia.

Concepção muito arcaica por remontar a civilizações muito antigas, esta concepção embriológica dos minerais resistiu bem a séculos de experiências técnicas e de pensamento racional3. Plino, na sua História Natural 4 afirmava claramente que as minas precisavam ser deixadas em repouso, durante longos períodos, para que nelas os minerais se regenerassem novamente. Outro tanto referia Strabon na sua Geografia5. E, já no século XVII, o autor espanhol Barba referia que uma mina esgotada é capaz de refazer os seus filões, contanto que seja devidamente selada e deixada em repouso por cerca de dez a quinze anos, e “enganam-se grosseiramente aqueles que pensam que os metais foram criados, no começo do mundo, tal e qual existem; não, os metais nascem e crescem nas minas”6.

Por sua vez, Glauber é também explícito: “a natureza opera sobre os metais um ciclo de nascimento e morte igual àquele que opera sobre os vegetais e animais”7.

Embriões formados no seio da Terra, os metais nela crescem lentamente, com seu ritmo temporal de gestação próprio, num processo em tudo idêntico ao ritmo temporal de gestação dos organismos vegetais e animais. À medida que crescem, vão atingindo a sua maturidade própria. O seu ritmo geológico temporal de maturação é diferente de metal para metal, como, entre os animais ou entre os vegetais, também difere de animal para animal ou de vegetal para vegetal. Se um dado metal for extraido do seio da Terra-mãe, arrancado prematuramente das trevas telúricas em que se verificavam as condições adequadas ao seu amadurecimento correcto, será um metal imperfeito. E assim como o embrião animal ou vegetal tirado do seio “materno” antes de cumprido o ciclo geológico de amadurecimento próprio não sobrevive porque não atingiu ainda a formação mínima que lhe permita existir por si, também o metal que seja extraido do seio da Terra-mãe antes de cumprido o seu ciclo de maturação não é aquilo que devia ser. É um aborto de metal que é o que são os metais vis, cujo desenvolvimento embrionário está ainda muito longe de ter atingido o grau de amadurecimento que lhe confere total perfeição e vida, a perfeição do ouro vivo.

Neste ponto, a crença de quase todos os alquimistas ia muito mais longe: se o ciclo de crescimento e maturação de qualquer embrião mineral no seio da Terra não fosse interrompido, por extracção extratemporânea, num entrave forçado do processo natural de gestação, todos os minerais resultariam, com o tempo, em ouro. A “nobreza” do ouro seria o resultado da sua “maturidade”; os outros metais são metais “comuns” porque “crus”, não amadurecidos8.

O alquimista acreditava, todavia, que seria possível intervir no processo natural de gestação dos minerais sem prejudicar o seu correcto crescimento e devida maturação. Mais: acreditava que o homem poderia intervir nesse processo, modificando o seu ritmo temporal, no sentido de o apressar. E este era o sentido de muito da sua actuação: colaborar com a natureza, ajudando-a no processo de formação, crescimento e maturação dos metais que se efectuava no seio da Terra, substituindo-se ao tempo que ela precisava para o realizar. Aquilo que a Natureza levava centenas ou milhares de anos a realizar, pretendia o alquimista realizá-lo no decurso de sua vida, de algumas dezenas de anos, mercê da Pedra-Filosofal que em si encerraria as condições necessárias para alterar por completo o ritmo geológico natural.

Deste modo, ele propunha-se retomar e aperfeiçoar a obra da mãe-natureza, afirmando-se como co-criador e “salvador-fraterno”, ao ajudá-la a cumprir a sua finalidade, a atingir o seu “ideal” que é a realização plena do processo de progenitura – mineral, vegetal, animal e humama – até à sua maturidade suprema, a concretizar-se na imortalidade e na liberdade absolutas9.

As razões seminais das pedras e dos metais

Esta crença hilozoista traduzida numa visão organicista de todo o Universo, dominou por completo o desenvolvimento do pensamento científico do mundo Ocidental até meados do século XVII. Só a interpretação mecanicista dos fenómenos naturais com origem em Newton, Descartes, Gassendi e outros, a destronaria paulatinamente. Não nos é de todo lícito afirmar que a gradual passagem de uma interpretação a outra se tenha consubstanciado em explicações alternativas mais convincentes dos mesmos fenómenos. Julgamos ser mais correcto afirmar que houve uma alteração na problemática científica que interessava aos cultores da ciência.

Na abordagem mecanicista da mineralogia, a atenção dos seus praticantes centra-se quase exclusivamente no estudo da composição e utilização dos minerais; pouco ou nada se questiona a sua origem. A questão da sua génese foi relegada para um plano secundário e votada praticamente a conformado silêncio. Na abordagem organicista, a génese dos minerais era a questão primordial e determinante, preocupada com a essência ontológica na própria origem de que decorre a sua constituição. Talvez não seja inadequado afirmar que o pragmatismo domina a abordagem mecanicista enquanto o essencialismo científico é a preocupação primeira da abordagem organicista.

Na convicção profunda de que o ciclo de nascimento e morte dos minerais é igual ao dos vegetais e animais, a sua origem deveria ser, na sua essência, idêntica à deles. Embora com ciclos temporais muito variados, os processos de nascimento, desenvolvimento e morte de vegetais e animais são, na sua essência, os mesmos: uns e outros têm a sua origem em sementes germinais para cuja formação contribui um elemento masculino conjugado com um elemento feminino. Depositadas no seio “materno”, o húmus, no caso dos vegetais, o ovo, no caso animal, aí se desnvolvem, crescem e atingem a perfeição característica da espécie a que pertencem. Porque não há-de acontecer o mesmo com os minerais, sejam eles as pedras ou os metais?

Na visão organicista da Natureza, essa era a crença geral. Na filosofia Ocidental, o discurso que a suporta desenvolveu-se com base nas chamadas “razões seminais”, o seu princípio activo. Na teoria das Ideias de Platão encontramos os primeiros traços desse discurso. Estoicos, discípulos de Zenão (c.490-430 a.C) e neo-platónicos, discípulos de Plotino, seriam, subsequentemente, os seus mais expressivos fautores.

Para os Estoicos, o Logos, potencialidade creativa, actua através das logoi spermatikoi, gérmens racionais ou razões generativas, disseminadas por todo o universo. Parte intrinseca de toda a matéria, a estas razões seminais se deve a capacidade de geração e crescimento que a mesma possui. Identificado o Logos do Universo com o Pneuma, os logoi spermatikoi seriam pneumas actuantes em separado sobre os diferentes tipos de matéria10.

No seu Livro sobre as Pedras, Teofrasto fala-nos de pedras masculinas (pedras de tons escuros) e pedras femininas (pedras de tons mais claros), referindo que das sementes dos corpos que se formam no interior da terra, umas tem a sua origem no elemento água, outras no elemento terra. Das primeiras resultam os metais; das segundas, as pedras11.

Nos séculos XV e XVI, o neo-platonismo de Marsilio Ficino (1433-1499), e o ecletismo místico e cabalista de Paracelso (1493-1541), deram-lhe nova ênfasis. Se considerarmos a influência deste último, durante todo o século XVI e parte do século XVII na interpretação científica dos fenómenos naturais, poderemos fazer um juízo sobre a importância da teoria das “razões seminais” no domínio da mineralogia antes da aceitação generalizada da filosofia mecanicista, referindo as ideias que defende, nomeadamente, nos tratados A Economia dos Minerais e Sua Genealogia12 e Livro dos Minerais13. Neles se sugere que a formação dos minerais é em muitos aspectos idêntica ao desenvolvimento dos frutos nas plantas, cujo desenvolvimento se faz a partir de sementes, no seio do elemento terra e no interior do elemento ar. A terra serve de matriz em que as sementes se desenvolvem e apropriadamente se alimentam. Os ramos das plantas estendem-se em todas as direcções totalmente circundados pelo elemento ar. De modo semelhante, a água serve de elemento matricial às sementes dos minerais que no seio dela se alimentam, desenvolvem e crescem até se tornarem espécimens amadurecidos. A matriz dos minerais – o elemento água – forma uma “árvore” dentro de seu próprio corpo onde deposita os seus frutos, quando chegada a estação própria, prontos para serem colhidos pelo homem14.

Na sequência de Paracelso, Bernard Palissy (1510-1590), Miguel Sendigovius (1556-1636), J. R. Glauber (1603-1670), E. Jorden (1569-1632), João Baptista Van-Helmont (1579-1644) e seu filho Francisco M. Van-Helmont (1614-1698), J. Webster (1619-1682), J. J. Becher (1635-1682) e G. E. Stahl (1660-1734), entre muitos outros, foram fieis defensores da teoria das razões seminais, ao longo dos séculos XVI e XVII, crendo convictamente na transmutação natural de uns metais em outros, no seio da terra, depois de gerados a partir delas. Para todos eles, como escrevia Sherley, em 1672, referindo-se à influência de J. B. Van-Helmont nas concepções mineralógicas da época, “as pedras e todos os corpos sublunares são feitos de água, condensada por virtude de sementes que nela actuam, com a assistência de Odores fermentativos, causa e origem de todas as transmutações que na matéria ocorrem. A matéria de todos os corpos é, na sua origem mera água”. Sob a acção de “sementes” que nela operam, alterando a sua textura e figura, a água coagula, condensa e assume as diversas formas que caracterizam diferentes corpos”15.

Os quatro elementos de Empédocles que a filosofia de Aristóteles consagrou serviriam meramente de matrizes ou lugares de amadurecimento e crescinento dessas sementes quando neles fossem depositadas. Substâncias corpóreas, finíssimas e subtis, imperceptíveis para qualquer órgão sensitivo, tais sementes eram, para os mais religiosos, “ideias” dessiminadas por Deus nos elementos, em que se continha o carácter do mineral, da planta ou do animal a que haveriam de dar origem, governadas por uma força vital, o archeus; ou, para os mais seduzidos pelo carácter dual masculino-feminino de todas as coisa, o resultado de um processo copulatório do enxofre e mercúrio filosóficos. Becher diz-no-lo com toda a clareza: os vapores sulfurosos e mercuriais entrelaçam-se no seio da terra levando à geração dos metais; o enxofre é o actor masculino; o mercúrio, o feminino. Por coagulação, no processo copulatório, se forma a semente; por fixação, no seio materno, a semente cresce, no sentido dum total amadurecimento que determinará a sua perfeição16.

A génese dos metais no quadro duma mineralogia corpuscular-mecanicista

 

O avanço da filosofia corpuscular dos sistemas de Descartes e, sobretudo, de Gassendi, procurando a explicação de todas as coisas na matéria e extensão, vai de mão dada com o crescente apagamento da filosofia organicista. Mais que uma questão de manifesta incompatibilidade entre os dois tipos de abordagem filosófica da Natureza, o declíneo da visão antiga face à nova concepção deve atribuir-se, principalmente, ao facto da explicação dos fenómenos naturais em termos corpusculatres se ter afirmado, pouco a pouco, como mais convincente, mais elucidativa e, porventura, mais eficaz no campo duma prática cada vez mais experimentalista. Não surpreende, pois, que alguns dos mais destacados adeptos das novas teorias corpusculares se tenham mantido fiéis, durante muito tempo, a muitos dos princípios defendidos pelos organicistas. No caso particular da explicação da génese dos minerais, podemos dizer que a afirmação das razões seminais dos minerais não foi de imediato erradicada dos escritos dos novos filósofos.

No desfiar da sua teoria corpuscular, o próprio Gassendi, ao remontar-se à origem dos minerais, em geral, e dos metais, em particular, subscrevia a teoria dos antigos, afirmando, embora, que a estrutura destas sementes seminais deveria ser pensada em termos da composição atómica da matéria17. Também R. Boyle (1627-1691), um dos mais ardentes defensores da filosofia mecanicista, no fascínio com que o seduziram muitos dos escritos de J. B. Van-Helmont18-19, confessou-se preparado para considerar, com grande seriedade, ainda que com alguma cautela, a origem seminal dos minerais. No Sceptical Chymist pode ler-se: “ parece-nos que as Terras Minerais e as correntes Metálicas contêm no seu âmago alguns Rudimentos seminais, ou algo semelhante”20. E no seu ensaio Sobre a Origem e Virtudes das Pedras Preciosas, Boyle relata vários casos de aparente crescimento de metais em minas que seriam do seu conhecimento21.

Esta situação deve, todavia, ser tida como um período de transição, no quadro da nova filosofia. De facto, com a crescente aplicação de métodos de análise química ao estudo dos minerais por Bergman e seus discípulos, e, paralelamente, o desenvolvimento da cristalografia com Romé de l´Isle e Haüy, nas últimas décadas do século XVIII, a visão organicista cede por completo à concepção geomorfológica de Descartes explicando todos os fenómenos minerais em termos de interacções mecânicas entre corpúculos ou fluidos de várias espécies constituidos corpuscularmente22.

Empenhado em explicar a origem e a história geológica do Globo terrestre, Descartes, nos seus Principia Philosophiae, partiu de um conjunto de princípios que considerou ostensivamente evidentes por sua própria natureza, dos quais deduziu uma explicação coerente do modo como terá sido construido o nosso planeta. Admitindo que com partida duma mesma origem, teriam sido possíveis diferentes processos de formação do universo de que poderia ter resultado uma grande variedade de “possíveis” mundos, não o preocupou especular sobre outros processos que não aquele que realmente terá ocorrido e de que resultou o mundo em que realmente vivemos. Segundo ele, este mundo que é o nosso formou-se a partir de um certo número de entidades teóricas em contacto com as quais vivemos no nosso dia a dia e que são a atmosfera, os mares e a crosta terrestre23. Da interacção entre aquelas entidades teóricas, resultaram as diferentes camadas ou regiões de que se compõe o Globo terrestre. Lá bem no interior, uma região formada de partículas muito subtis, o que resta da matriz elemental da origem; à sua volta, uma camada compacta e opaca de material resultante de matéria solar; mais exteriormente, em camada concêntricas, uma região muito irregular composta de corpúsculos muito ramificados, seguida de uma outra região composta por uma camada liquida de água a partir da qual se terão formados os oceanos, formada por corpúsculos aquosos à mistura com outras partículas de geometria variada; circundadndo esta região, aparece a crosta terrestre e a camada fluida que constitui a atmosfera.

Não entraremos aqui nas considerações de Descartes sobre o modo como os diferentes corpúsculos que entram na composição de cada uma das diferentes camadas se terão formado, e consequentemente, no modo como se terão constituido essas mesmas camadas. Apenas algumas palavras no que se refere à génese e evolução dos minerais no interior da crosta terrestre.

Segundo Descartes, num processo muito semelhante ao descrito pela teoria das exalações de Aristóteles explicando a formação das pedras e dos metais a partir da transformação dos fumos e vapores gerados no seio da terra ao serem exalados para fora dela, no tempo quente, os corpúsculos de água liquida que entram na composição da camada terrestre mais interior à sua crosta sólida, libertar-se-iam, através dos muitos poros existentes na interface de ambas as camadas e combinar-se-iam com partículas da camada gasosa, formando partículas com tamanho tal que já não conseguiriam voltar para a camada interior de onde sairam. Num processo longo de muitos anos, os “espaços” vazios deixados na camada mais interior por ausência das partículas que a deixaram, formariam cavidades subterrâneas que ao aluirem sob o peso da camada mais exterior levariam à fragmentação desta. Ao dar-se o colapso, muitos dos fragmentos iriam cair em a meios “pantanosos”, com uma matriz liquida de composição diversa de local para local. Da incorporação de porções desta matriz liquida nos interstícios dos fragmentos nela caidos resultariam os diferentes minerais.

Descartes não era um mineralogista. Conhecia, todavia, as substâncias mais comuns de que é formada a crosta terrestre, tentando explicar a sua formação em termos da teoria mecanicista que defendia. Esta sua explicação foi adoptada por quase um século por mineralogistas e geologistas, particularmente em França. Da sua explicação resulta clara a tese de que os diferentes minerais não existiram sempre na forma e na composição que os encontramos hoje. Foram-se formando a partir de diferentes corpúsculos e por processos variados, não significando que o aparecimento de um dado metal numa determinada região da crosta terrestre tenha seguido exactamente a mesma tramitação do aparecimento de igual metal numa outra região, sob condições de formação diferentes. Não pode pois dizer-se que segundo Descartes, há sementes específicas de cada metal, ou que na transformação de um metal em outro se verifique um processo reprodutivo do tipo do que se verifica nos animais e nas plantas. Consequentemente, da filosofia de Descartes não fazia parte a crença de que todos os metais, num processo intrinseco de aperfeiçoamento, tendem a converter-se, gradualmente, com o evoluir do tempo, em prata, primeiro, e ouro, depois.

Sem dúvida que para Descartes e para os geólogos e mineralogistas que durante tantos anos seguiram a sua doutrina, a especificidade de cada mineral ou de cada metal é determinada pela sua composição que nos dará conta da sua essência. Essa composição não é, todavia, determinada de modo único a partir das mesmas “sementes”, no caso, de idêntico tipo de corpúsculos. Determinantes são também, os diferentes movimentos e as diferentes circunstâncias em que operam as forças que levam a essa composição.

 

A génese dos metais e a ciência contemporânea

 

No nosso século, a ideia das “razões seminais” dos minerais continua presente, um pouco por toda a parte, dentro e fora do campo da ciência. Muito perto de nós, no norte do nosso país, em Manhouce, são motivo da curiosisdade de todos as chamadas “pedras parideiras”; os cosmógonos falam das “sementes das galáxias”24, como os biólogos falam das “sementes da vida”. Seduzido já pela Mecânica Quântica, Hopkins teorizou sobre o embrião gerador do ouro, chamando-lhe o Ios25.

Qual grão lançado à terra que antes de germinar parece conhecer a morte num processo de aparente apodrecimento e dissolução, o desenvolvimento natural do Ios está condicionado pelo “seio materno” em que foi lançado e sobre ele têm influência determinante os diferentes astros. Um e outros ditam o seu ciclo natural de desnvolvimento, à semelhança do que se passa com o ciclo de germinação, crescimento e amadurecimento das diferentes espécies de animais e vegetais. Quantum de energia creativa, a sua estabilidade é tão grande que na nossa escala temporal, o podemos considerar perene. Por isso é também elixir de vida eterna. Ele consubstancia uma matriz de finas partículas de matéria energicizada, “mar” informe de protões, neutrões e electrões, a partir da qual, por diferente associação e combinação, todos os elementos naturais podem ser formados. O segredo da sua actuação como “razões seminais” de tudo quanto existe, nomeadamente dos diferentes minerais, talvez deva ser procurado no dinamismo que terá informado os primeiros instantes do universo e, mais restritamente, nas condições de pressão e temperatura que ainda hoje se verificam em muitas estrelas, nas quais se inclui o sol. Nelas se formam continuamente novas e diferentes jazidas metálicas a partir de elementos totalmente diferentes. As recentes experiências levadas a efeito, em Genebra, por um grupo de Físicos, tentando reproduzir os primeiros instantes que se seguiram ao big-bang em que se terá originado o Universo apontam nesse mesmo sentido. Nesses primeiros instantes apenas existia uma matéria ainda não organizada em átomos, nem núcleos, o quagma, uma “sopa” de quarcks e glutões, com uma energia e uma densidade tão grandes que não permiriam a distância necessária a qualquer organização elemental. Da “interacção forte” que manteria ligados os quarcks constitutivos de cada protão e de cada neutrão, sob a acção de glutões, se constituiria a semente dos diferentes elementos que nos instantes seguintes se foram formando, num processo de crescimento e amadurecimento que ainda hoje, não está terminado, e não sabemos se algum dia terminará26.

A chave da transmutação de um qualquer metal noutro está na sua própria origem a partir dessas “razões seminais” primitivas que foram e são as partículas elementares constituidas em “mar” informe de protões, neutrões e electrões. No dia em que o homem as saiba manipular, compreenderá a possível formação e crescimento dos minerais no seio da terra-mãe, como compreende já a formação de vegetais e animais a partir de um óvulo fecundado tornado semente que em si contém a formação, crescimento, vida e morte do ser em que se pode tornar. E a ciência que lhe permite já hoje manipular este óvulo, e lhe perspectiva a síntese laboratorial do próprio DNA na tentativa de “criar” vida artificial27 abrir-lhe-á as portas da possível manipulação das “razões seminais” de que se formam os minerais.

Se há quinze mil milhões de anos não havia tempo, nem espaço; se então, num vazio inimaginável, apenas existia uma pequena bola de fogo incomensuravelmente quente e densa; se então, de repente, numa gigantesca explosão de radiações e matéria, nasceu o universo e com ele o Tempo e o Espaço, porque não nascem também, noutro momento da história, os minerais, como nasceu a vida vegetal e animal? E uma vez formados, porque não hão de crescer e morrer com ciclos e mecanismos próprios?

Refira-se, a propósito, a química da formação das pedras, incluindo as pedras preciosas, sejam elas o rubi, a safira, a esmeralda, ou outras. Elas são, em geral, misturas de sais de dois ou mais elementos. Quanto mais desfavoráveis forem as condições termodinâmicas da formação da mistura que caracteriza uma determinada pedra, mais rara ela será. E a raridade é, por via de regra, sinónimo de preciosidade. É o caso da esmeralda, um ciclosilicato semelhante à safira [ciclosilicato de berílio e alumínio, Be3 Al2 (Si6O18)] em que o alumínio é parcialmente substituido por crómio, vanádio e, menos frequentemente, ferro. As dificuldades destas substituições estão na origem da sua raridade. De facto, o crómio, o vanádio e o ferro, por um lado, e o berílio e os elementos alcalinos, por outro, têm, na sua generalidade, jazidas geoquímicas muito diferentes : os primeiros são constituintes preferenciais do manto terrestre, enquanto os segundos são da crosta continental, o que não favorece fácil intercâmbio28.

As “razões seminais” e o essencialismo em ciência

 

 

De acordo com Aristóteles “só podemos conhecer uma coisa conhecendo a sua essência” e “conhecer uma coisa é conhecer a sua essência”; esta é a sua definição, o mesmo é dizer, “a definição é a fórmula da essência” e, consequentemente, “só há verdadeiro conhecimento de qualquer coisa quando conhecemos a sua essência”29 O nome de uma coisa exprime a sua essência; a fórmula que o define descreve-a, sendo tanto mais adequada quanto mais exaustiva for a descrição que comporta. Só se chega à definição cabal de uma coisa depois de muitas observações experimentais e, posto que nem sempre o conhecimento empírico é suficiente para atingir a essência universal, a elas se juntam, num processo global da construção da ciência das coisas, a intuição intelectual que opera sobre premissas básicas de prova que são também elas definições de outras tantas coisas. Na metodologia construtiva da definição do objecto científico se faz a ciência. Esta é essencialista porque deduz as propriedades das coisas a partir das suas essências30.

Defensora das “razões seminais” geradoras dos minerais, específicas de cada um deles, como específicas são as razões seminais de cada ser animal e vegetal, sem o conhecimento das quais não seria possível conhecer a essência do ente que delas se formou, a ciência holozoista era uma ciência estritamente essencialista.

O mesmo se não pode dizer da ciência mecanicista. De facto, para esta o conhecimento das “razões seminais”, quaisquer que sejam, está longe de poder ser tido como conhecimento cabal dos entes que delas se formam, pois que os mesmos corpúsculos poderão originar seres muito diferentes. Não é possível deduzir as propriedades das coisas a partir apenas das “razões seminais” de que se formaram. Impõe-se conhecer as circunstâncias em que se desenvolveram. Não surpreende pois, que já se tenha considerado que a concepção corpuscular que se apropriou da química no século XVII tenha representado o derrube do essencialismo em química. Conhecer a essência das coisas não constitui só por si possuir a sua ciência. Saber defini-las, conhecer a sua essência, não é de per si, a “verdadeira maneira de entrar em contacto com as forças secretas da natureza e manipulá-las”, na expressão poética de Fernando Pessoa31.

Mecanicistas que somos, sabemos que conhecidas as “razões seminais” de um qualquer metal, não importa se concebidas como a ulh, a divina razão criadora de Aristóteles, se as logoi spermatikoi dos Estoicos, se os corpúsculos dos mecanicistas, ou ainda a matriz de finas partículas de matéria energicizada da actual Mecânica Quântica, não temos matéria bastante para caracterizar a essência dos diferentes entes. É necessário conhecer as forças da natureza que determinam o seu processo evolutivo. A ciência dos nossos dias conhece muitas dessas forças. Mas quantas há que são para ela, ainda forças desconhecidas e secretas? Para dominar por completo a génese dos diferentes minerais e metais, tal como para dominar o processo da génese de animais e plantas, não basta à ciência conhecer todas as forças da natureza que a determinam, aquelas que são hoje já patentes e aquelas que sendo hoje secretas possam vir a ser bem conhecidas num àmanhã mais ou menos próximo. É preciso também saber e ser capaz de manipulá-las.

 

Referências:

 

1 – S. Mahdihassan, Elixirs of mineral origin in Greek Alchemy, Ambix, 24 (1977), 133-142.

2 – M. Eliade, Forgerons et Alchimistes, Flammarion Ed., Paris, 1956, capítulos 3-4.

3 – Idem, pg 48.

4 – Plinio, Historia Natural, XXXIV, 49.

5 – Strabon, Geografia, V, 2.

6 – Citado por P. Sébillot, Les Travaux Publics et les Mines dans les Traditions et les Superstitions de Tous les Peuples, Paris, 1894, p. 398.

7 – Citado por G. Bachelard , La Terre et les Rêveries de la Volonté, Paris, 1948. p.247.

8 – Mircea Eliade, O. Cit., pg. 55.

9 – W. Theisen, John Dastin, The Alchemist as co-creator in Ambix, 38 (1991), 73-78; Mircea Eliade, O. cit., pp. 54-56.

10 – J.R Partington, A History of Chemistry, Vol. I, Part.1 : Theoretical Background, London, MacMillan & Co.Ltd, 1970, pp. 158.

11 – Theophrasti de Lapididus Liber, ab Adriano Turnebo Latinitate donatus, Paris, Officina F. Morelli, 157.

12 – Paracelsus, A Economia dos Minerais e Sua Genealogia in Paracelsus, Opera Omnia, Ed. A. E. Waite, London, 1894, vol.I, pp. 89-113.

13 – Livro dos Minerais in Paracelsus, Opera Omnia, Ed. A. E. Waite, London, 1894 vol.I, pp. 237-56.

14 – Paracelsus, Opera Omnia, Ed. A. E. Waite, London, 1894, vol.I, pp.92-93; 240 – 241.

15 – T. Sherley, A Philosophical Essay: Declaring the probable causes, whence Stones are produced in the Greater World, London, 1672.

16 – J. J. Becher, Institutiones Chimicae Prodomae, id est, Oedipus Chimicus Obscuriorum Terminorum & Principiorum Chimicorum, Mysteria aperiens & resolvens, Amsterdam, 1664.

17 – P. Gassendi, Abrege de la Philosophie de Gassendi en VIII Tomes. Par F. Bernier, Docteur en Medicine de la faculte de Montpelier, Lyon, 1678, V, 85, 91, 107 and passim, citado in D. R. Oldroyd, Mechanical Mineralogy, Ambix, 21 (1974), p. 159.

18 – A. G. Debus, The Chemical Philosophy, Vol.II, Science History Publications, N.York, 1977, pp.473-484.

19 – D. R. Oldroyd, Some Neo-platonic and Stoic influences on mineralogy in the sixteenth and seventeenth centuries, Ambix, 21 (1974), p. 153.

20 – R. Boyle, The Sceptical Chymist, London, 1661, p. 364.

21 – R. Boyle, An Essay about the Origin and Virtues of Gems, London,1672.

22 – D. R. Oldroyd, Mechanical Mineralogy, loc. cit., 157-178.

23 – E. J. Aiton, The Vortix Theory of Planetary Motions, London, 1972.

24 – Teresa Firmino, As sementes das Galáxias in Público, 27 de Abril.2000.

25 – A. J. Hopkins, The kerotakis process of Zozimus, Isis, 29, 1938, 327.

26 – Teresa Firmino e Ana Gerschenfeld, O Big Bang dentro da Televisão, in Público, 27 de Abril.2000.

27 – Cientistas querem criar Vida Artificial in Público, 28. Janeiro. 2000.

28 – La Science au présent, in Encyclopaedia Universalis, 1999, pp.63-64.

29 – Aristóteles, Metaphysica, 1031 b7, 1031 b20 e 996 b20.

30 – K. R. Popper, The Open Society and Its Enemies, vol.II, 4ªEd., Londres, Routledge & Kegan Paul, 1962, cp.11.

31 – Fragmentos do Espólio de Fernando Pessoa; fragmento 54-97.

Lisboa, 3 de Maio de 2000